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Prof. Dr. Célio Taniguchi - 1994-1998

CelioTaniguchiExercício: 1994 a 1998

A história de vida de Célio Taniguchi já começa marcada pelo movimento, pela busca de novas oportunidades. O pai era o caçula da família e não podendo ter as mesmas chances que os irmãos, resolveu emigrar em 1933 de Fukui, no Japão, rumo ao continente e em especial ao país para o qual depositava esperanças: o Brasil.

Na cidade de Pereira Barreto, noroeste do Estado de São Paulo, vieram a instalar-se em uma fazenda. Pelos abalos de saúde que o acometeram, o pai acabou depois por ser poupado do trabalho árduo, não por isso deixando de esforçar-se, na medida em que reuniu os imigrantes japoneses que ali viviam e passou a dar-lhes aulas. Foi nesse entremeio que, em 26 de outubro de 1938, nasceu Célio Taniguchi. É o filho mais velho de três irmãos – o do “meio” fez engenharia no ITA e hoje, pela segunda vez, exerce o cargo de prefeito da cidade de Curitiba (Paraná) e a mais nova foi chefe de nutrição do hospital infantil Cândido Fontoura na Móoca, na capital de São Paulo.

Decorridos alguns anos, o Sr. Taniguchi, preocupado com a educação dos filhos, transferiu-se de uma filial do Banco América do Sul – instituição em que na época trabalhava – localizada no interior do Estado, para a capital de São Paulo. Ali Célio Taniguchi estudou no Grupo Escolar Princesa Isabel e na Escola Estadual Presidente Roosevelt, de onde rememora os colegas e também futuros professores da USP, Eitaro Yamane (Engenharia Mecânica), Umberto Giuseppe Cordani (Geociências) e Walter Colli (Química). Desse tempo ainda guarda lembrança da professora do Grupo, Elza Nieble Brasão que, durante as aulas, corrigia sua fonética – então mesclada ao japonês pela influência familiar – e da professora de Ciência de História Natural que, mediante conselhos, o inclinou a cursar medicina.

Não obstante, sua opção de carreira foi a Engenharia Naval na Escola Politécnica de São Paulo. Contando com 18 anos de idade, prestou os exames, logrando-os todos e em 1957 adentrava a Escola como parte do corpo discente, frequentando, inclusive, algumas atividades práticas, alocadas na grade curricular, no tanque de provas do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

Na realidade, o curso de Engenharia Naval vinha na esteira do desenvolvimento da Marinha no país. De acordo com o que pauta Potiguara, "do início da década de 1940 até meados da década de 1960, a Marinha de Guerra do Brasil dedicou-se ao tráfego marítimo da costa Atlântica da América do Sul (...). Sempre voltada a estudos nas áreas de Hidrografia, Oceanografia e Náutica, a Marinha criou, em convênio com a Escola Politécnica de São Paulo, no ano de 1955, um curso de Engenharia Naval.” (PEREIRA, Potiguara. Tecnologia militar IN: MILTON, Vargas. História da Ciência e da tecnologia do Brasil, 1994).

Do período estudantil em meio às aulas, elucida uma situação no mínimo peculiar, ocorrida em 1959, no terceiro ano letivo: “E o professor Aldo Andreoni tomava conta do tanque de provas do IPT, era diretor do tanque. E, não sei se vocês sabem, mas lá , o pH da água, a temperatura, tudo é controlado e não pode nada entrar que a contamine. Por exemplo sei cai gota de óleo, já tem de recolher imediatamente. (...) E a gente não sabia disso... É... Estágio de verão, fevereiro, um tremendo calor. (...) O que aconteceu? Tiramos a roupa e mergulhamos no tanque (...). Todos. Aí veio o prof. Andreoni já gritando! ‘Vocês são uns criminosos! Vocês estão botando a banha de vocês na água. Vocês não sabem que isso altera o pH, altera a oleosidade, altera a viscosidade da água? (...) Nós entramos aqui, fomos nadando até a outra ponta e saímos de lá, mas levamos uma bronca naquele dia (...)” (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor Célio Taniguchi, 2003).

Da mesma forma, tem na memória as ocasiões do trote aos calouros e os dias que ficava encharcado e os malabarismos enfrentados para chegar ao IPT. Sem meio de transporte eficiente que o levasse, era necessário estar preparado para as intempéries do barro. Lembra também em especial dos professores Otávio Gaspar de Souza Ricardo e Alfredo Coaracy Brazil Gandolfo – que muito o influenciaram – relembra as traquinagens que faziam com que o mestre e professor Francisco João Humberto Maffei ralhasse severamente com ele e seus colegas, quando jogavam futebol com uma bolinha de papel , no salão de desenho da Naval e posteriormente excederem-se na festa de despedida da Escola ocorrida em 1961.

Logo, com o diploma em mãos e passados quatro anos, em empresas de construção civil, o professor Célio Taniguchi passou a ser docente em tempo parcial da Escola Politécnica em 1965, então sob a direção do Prof. Tharcísio Damy de Souza Santos. Em 1984, com o falecimento do professor titular Alfredo Gandolfo, veio a assumir o cargo de chefe de departamento de Engenharia Naval, no qual permaneceu durante 8 anos (1984-1992), sendo sucedido pelo professor Hernani, permanece então na vice-chefia.

De 1994 a 1998 dedicou-se à diretoria da Escola, denotando-a como “uma experiência fantástica. Foi um grande aprendizado. Eu acho que, se pudesse, todos os professores deviam ter essa experiência de direção, porque, ele fica conhecendo, não só a Escola, mas a Universidade como um todo (...) E conhecendo a Universidade, você fica conhecendo o universo de outras Universidades também. Então é uma experiência fabulosa, não só de relacionamento, mas também no sentido de você conhecer as pessoas. Você aprende a ser mais humilde (...). Às vezes você é meio, vamos dizer, petulante e arrogante, mas esse orgulho é um orgulho tolo, não é? Você aprende a conviver com as pessoas.(...) Mas eu acho que, uma pitada de humildade não faz mal a ninguém (...) . Não é por isso que você é menos considerado, sabe? Nunca me criticaram por eu ser um pouquinho mais retraído, talvez um pouquinho mais tímido, mas, pelo contrário, a pessoa se aproxima mais da gente e, isso é ótimo. Boa oportunidade para aprender mais coisas (...). Você aprende muita coisa com pessoas assim, mais simples. (...) A gente não deve desprezar as pessoas. Por mais humilde que ele seja, a gente aprende muito com ela, sinceramente. Não é demagogia não, acho que é (...) verdade.” (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor Célio Taniguchi, 2003).

No papel de diretor, deu continuidade à reforma curricular dos cursos de engenharia. Por exemplo, ela incluía uma matéria intitulada Introdução à Engenharia – que dava noções preliminares aos alunos acerca da Engenharia – na qual a presença deles passou a valer pontuação a ser contada na média final. Participavam da disciplina cerca de 26 docentes que dividiam entre si as aulas com mesmo conteúdo, para cerca de 720 alunos ingressantes no primeiro ano letivo da Politécnica.

Em sua gestão também deu prosseguimento ao processo de ampliação e participação dos docentes em cursos de técnicas de ensino que, em última análise, beneficia os próprios estudantes. Para execução dessa reforma, o Prof Francisco Romeu Landi já havia dado início ao processo, proporcionando a diversos mestres viagens ao exterior – Canadá, Estados Unidos e Europa – para que realizassem um levantamento minucioso dos cursos de engenharia no mundo todo.

A estrutura final do referido curso, no entanto, levou cerca de dez anos para ser aprovada e implementada na Escola. Nos dois primeiros anos os alunos partilhariam de um aprendizado amplo, que englobasse disciplinas fundamentais de áreas básicas e, nos três anos seguintes, voltariam atenção às disciplinas da Ciência de Engenharia e às de dentro da opção escolhida. Após isso, poderia seguir para a pós-graduação com o mestrado e o doutorado, com o intuito de cada vez mais aprofundar os conhecimentos dentro da área escolhida.

Quanto ao seu caminho de estudos propriamente, o professor Célio Taniguchi relembra que a experiência como aluno da Politécnica lhe rendeu boa facilidade em encarar os desafios da especialização no Japão e nos Estados Unidos. No primeiro “você via o dia a dia de uma fábrica, ia à oficina, vê, mexe, suja a mão de graxa, e aprende muito. (...) Mas na segunda oportunidade e depois de 9 anos, você sentar na cadeira e pegar um livro e começar a estudar assuntos um pouquinho mais difíceis, foi duro no começo. E essa dificuldade, sabe, foi um desafio (...). E aí comecei, comecei a estudar pra valer – “Gostei”. (...) Foi quando me mandaram para MIT em 1970. Lá também é realmente puxado e acho que é uma das escolas mais exigentes do mundo.” (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor Célio Taniguchi, 2003).

Nessa empreitada, dedicou-se por quase dois anos ao mestrado nos Estados Unidos, ali também realizando o Engineer que constituía-se em uma espécie de pós-mestrado. Retornou ao Brasil, em 1972 e, em 1974 doutorou-se sob orientação do Prof Gaspar Ricardo, tendo como tema a Engenharia Metalúrgica.

Assim, detentor de uma bagagem de conhecimentos ampla, em 1980 o professor Célio Taniguchi afastou-se temporariamente da Escola Politécnica para, ao lado do saudoso mestre Décio Leal de Zagottis, auxiliar na formação dos cursos de Engenharia da Universidade Paulista (UNIP).

Refletindo acerca das diferenças que o papel de engenheiro assume ao longo do tempo, elucida que o profissional da atualidade “é um ser humano que está inserido num complexo contexto humano. (...) Você tem que se corresponder, quer dizer, fazer a troca. (...) Com os outros também. (...) E no mesmo nível, então não adianta você ser autoritário, hoje não funciona mais. Você dá bronca, o cara vira as costas, está rindo da sua cara. Então, você tem que ser humilde, mas não subserviente, o suficiente para você aceitar os erros. Consertando e evoluindo.

Antigamente não, eu lembro que a gente era um calculista especializado de navio. ‘Olha, puxa vida, você consegue calcular’. Sai fácil, tal, mas eu devia ser zero em relações humanas porque só ficava calculando (...). Hoje você não pode ser mais assim (...)” (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor Célio Taniguchi, 2003).

Amante do ofício de engenheiro naval, o professor destaca várias realizações da Escola nesta área que chama a atenção de todos. Um deles é tanque numérico coordenado pelo Prof . Kazuo Nishimoto, onde os pesquisadores têm a oportunidade de visualizar virtualmente a um barco ou submarino. Por outro lado, nunca esqueceu a sensação de ver seu primeiro barco projetado flutuar, por ocasião de seu lançamento.

Para tanto, os profissionais dessa especialidade devem ter sempre em mente aquela amplitude de visão generalista apreendida na Escola, na medida em que “o navio é uma cidade flutuante”, para o qual há a necessidade de um conhecimento “eclético”, que englobe “ter conhecimento do tipo um pouco de tudo”. Além disso, no desempenho de suas funções e ultrapassando os limites das dificuldades técnicas, há os problemas de cunho fisiológicos, como os enjôos no decorrer das provas de mar, em dias de tempestade ou quando a embarcação é pequena.

Entretanto, a despeito desse conjunto de fatores que, sem dúvida, influem no trabalho do engenheiro naval, as sub-áreas que estão mais desenvolvidas são as de estruturas navais, hidrodinâmica, máquinas marítimas, sem esquecer dos estudos relativos à logística dos transportes marítimos.

Em um primeiro momento, comenta o professor, os focos principais dos engenheiros aqui formados eram os navios mercantes em geral. Nos últimos tempos, porém, os engenheiros têm se detido também ao estudo embarcação de pequeno porte como veleiros, lanchas rápidas e barcos de passeio, o que, em sua opinião, proporcionará o desenvolvimento no Brasil de embarcações para fins de lazer e turismo.

Cruzando a fronteira das atividades como engenheiro, estava a docência. Ministrar aulas é “uma experiência fantástica. (...) Essa de ensinar para jovens. (...) E... tanto é que eu gosto mais de Graduação do que de pós”, pois o contato com esses alunos e a energia que deles emana são constantes fontes de estímulo ao trabalho, tendo como adendo, auxiliar ao longo de anos, a educar os filhos, entendê-los melhor, manter-se calmo, lúcido e “envelhecer com alegria”. Por seu turno, nessa relação, o mestre ensina aos futuros engenheiros que para mergulhar na profissão são imprescindíveis o bom senso, o gosto pelos estudos, aproveitar as lições dos professores e conhecer um pouquinho de teoria, principalmente nos âmbitos de matemática aplicada e raciocínio lógico.

Em relação às perspectivas futuras, o professor Célio Taniguchi mostra-se preocupado com os efeitos que vêm acarretando as medidas do governo relativas à previdência. Lembra que três docentes de seu departamento têm condição de se aposentar e os novos engenheiros, receosos com relação ao futuro, podem não querer se dedicar à carreira acadêmica. Deste modo, o desfalque de professores tornar-se-á patente, comprometendo a qualidade de ensino. Inclusive, ressalta o fato de que quando assumiu a direção, a Escola possuía 536 docentes e já na gestão seguinte, esse número caiu para 480.

Em realidade, comenta o mestre, “como docente foi muito difícil, educar os 3 filhos pois, diferentemente de meu tempo, os colégios estaduais deixaram de ter a qualidade de outrora e hoje a gente é obrigado a colocá-los nas particulares. Houve uma época, em que os três freqüentavam escolas particulares, depois um ia para o cursinho, depois outro e assim por diante. Olha, aí foi difícil...”. (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor Célio Taniguchi, 2003).

No entanto, ser professor da Politécnica proporciona algumas vantagens, principalmente em relação à convivência familiar, ou seja, poder estar perto da família, estar presente na educação dos filhos nas atitudes mais cotidianas, como levá-los e buscá-las na escola. Sem grandes ambições econômicas, para o professor o primordial é a satisfação pelo trabalho realizado.

Contando trinta e oito anos de docência, Célio Taniguchi prima pela formação de excelência aos estudantes da Escola Politécnica, ao propiciar uma troca mútua de experiências e um contato profícuo, que renova a cada dia o gosto pelo ensino e pelo próprio e constante aprendizado.